ARTIGO

Obra pública parada não é apenas desperdício de dinheiro

Uma escola inacabada significa alunos que continuam sem a estrutura que lhes foi prometida

Edmilson Rodrigues
Goiânia | 13/10/2026

Nenhuma ferramenta substitui pessoas preparadas para utilizá-la | Foto: IA

Quando uma obra pública para, é comum que seja questionado o montante de dinheiro gasto, quanto falta para terminar ou quanto será necessário desembolsar para retomar o projeto. Tratam-se de perguntas importantes, mas insuficientes para dimensionar o verdadeiro prejuízo.

Uma escola inacabada significa alunos que continuam sem a estrutura que lhes foi prometida. Uma unidade de saúde que não entra em funcionamento representa consultas, exames e atendimentos que deixam de ser oferecidos. Uma estrada interrompida afeta deslocamentos, produção e desenvolvimento econômico. Por trás de cada obra pública paralisada existe um investimento que não se transformou em serviço para a sociedade.

Infelizmente, estamos longe de falar de casos isolados. Dados do Tribunal de Contas da União (TCU), atualizados até abril de 2025, mostram que, das 22.621 obras financiadas com recursos federais mapeadas no país, 11.469 estavam paralisadas. São 50,7% do total. Em outras palavras, praticamente uma em cada duas obras analisadas não estava avançando.

Há outro número que talvez seja ainda mais preocupante. Entre abril de 2024 e abril de 2025, foram iniciadas cerca de 5.500 novas obras. Aproximadamente 1.200 delas já estavam paralisadas ao fim desse período. Ou seja, 22% dos empreendimentos recém-iniciados encontraram problemas antes mesmo de avançarem significativamente. O TCU informa ainda que R$ 15,9 bilhões já haviam sido investidos nas obras que estavam paradas. 

Esses números nos obrigam a fazer uma pergunta: por que essas obras não são finalizadas e o pior, porque começar outras sem terminar as já iniciadas? 

Não existe uma resposta única. Obras públicas são complexas e podem ser afetadas por dificuldades orçamentárias, questões ambientais, desapropriações, problemas com empresas contratadas e uma série de circunstâncias externas. Mas também existem problemas que se repetem há anos: projetos deficientes, orçamentos inconsistentes, planejamento insuficiente, falhas na contratação, fiscalização ineficiente e uma gestão contratual que muitas vezes age apenas depois que o problema já aconteceu.

Portanto, é preciso compreender que a qualidade de uma obra pública começa muito antes do primeiro tijolo. Começa no estudo técnico, na definição precisa da necessidade pública, na elaboração dos projetos, no orçamento, na escolha do modelo de contratação e na identificação antecipada dos riscos. Uma licitação bem-sucedida não é simplesmente aquela que consegue contratar. É aquela que cria condições para que o objeto contratado seja efetivamente entregue, com qualidade, dentro de parâmetros adequados de prazo e custo.

A legislação avançou. A Lei nº 14.133/2021 trouxe instrumentos importantes e reforçou conceitos como planejamento, governança, gestão de riscos e responsabilização. A tecnologia também oferece possibilidades que há poucos anos não estavam disponíveis na mesma escala. BIM, inteligência artificial, sistemas de acompanhamento e análise de dados podem melhorar projetos, antecipar inconsistências e tornar a fiscalização mais eficiente.

Mas nenhuma ferramenta substitui pessoas preparadas para utilizá-la. Talvez esse seja um dos pontos centrais dessa discussão. Investir na qualificação de quem planeja, contrata, fiscaliza e gerencia obras públicas não é uma despesa acessória. É parte do próprio investimento em infraestrutura.

Também precisamos enfrentar uma cultura administrativa excessivamente reativa. Muitas vezes, a atuação acontece quando o atraso já existe, o aditivo se tornou inevitável, o contrato está em conflito ou a obra parou. Uma administração pública mais eficiente precisa migrar da correção para a prevenção.

Isso exige profissionais capazes não apenas de conhecer a legislação, mas de tomar decisões técnicas, identificar riscos e documentar adequadamente suas escolhas. Segurança jurídica não pode significar imobilismo. Pelo contrário: deve oferecer condições para que o bom gestor tome decisões fundamentadas sem transformar o medo da responsabilização em obstáculo à entrega.

A dimensão social desse problema fica ainda mais evidente quando observamos onde estão as obras interrompidas. Educação e saúde concentram 70% das paralisações identificadas pelo TCU, com mais de 8 mil empreendimentos inacabados. São justamente áreas em que a ausência de infraestrutura chega rapidamente à vida das pessoas. 

Em junho deste ano, órgãos de controle, sistema de Justiça e governo federal firmaram um novo acordo de cooperação para buscar a retomada de obras interrompidas, priorizando justamente empreendimentos de educação e saúde. É uma iniciativa necessária, mas o desafio brasileiro não pode se limitar a destravar aquilo que já parou. Precisamos também reduzir a quantidade de novas obras que entram nessa estatística. 

É por isso que considero tão importante ampliar os espaços de troca entre gestores, engenheiros, arquitetos, advogados, fiscais, agentes de contratação e profissionais dos órgãos de controle. Em novembro, quando realizarmos em Goiânia a quinta edição do Seminário Excelência na Contratação de Obras Públicas e Serviços de Engenharia, esse será um dos debates que estarão no centro das discussões: como transformar conhecimento técnico, inovação, planejamento e segurança jurídica em melhores entregas para a sociedade. A programação inclui justamente temas como gestão contratual, prevenção de irregularidades, BIM e inteligência artificial.

No ano passado, tivemos essa discussão no Rio de Janeiro. Agora, ao trazê-la para o Centro-Oeste, queremos continuar aproximando profissionais que enxergam o mesmo problema por perspectivas diferentes, mas que compartilham uma responsabilidade comum: fazer o recurso público chegar ao cidadão na forma de uma obra concluída e de um serviço funcionando.

Porque talvez seja essa a mudança de perspectiva de que mais precisamos. O sucesso de uma obra pública não está em anunciá-la, licitá-la ou iniciá-la. Está em entregá-la. E, diante de um país em que praticamente metade das obras mapeadas está paralisada, concluir precisa voltar a ser a nossa principal medida de eficiência.



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