ARTIGO
O imperador, a esposa e o gladiador: o que a Roma antiga ensina sobre o seu divórcio
Marco Aurélio nos deixou uma pergunta que é simples, mas incomoda: você vai deixar a dor te definir ou te libertar?
Marco Aurélio nos deixou uma pergunta que é simples, mas incomoda: você vai deixar a dor te definir ou te libertar? | Foto: Divulgação/IA
Prezados leitores,
Eu preciso começar com uma confissão: esse tema me persegue há um bom tempo. Porque todo mundo já ouviu falar quase como fofoca de corredor que Faustina, a esposa do imperador romano Marco Aurélio, teria se envolvido com gladiadores, senadores, soldados. Um escândalo e tanto, não é? Só que a gente precisa ter honestidade intelectual aqui. Boa parte dessas histórias vem da Historia Augusta, que era basicamente o “tabloide” da Roma antiga um amontoado de exageros, intrigas políticas e fofoca, uma pura fábrica de fake news da época.
Vou ser franco: provavelmente nunca vamos saber o que de fato aconteceu entre os dois. E não é isso que me interessa. O que me interessa é demonstrar a vocês a reação. Como um ser humano lida com a dor seja ela causada por fatos reais ou por rumores que destroem reputações? Porque isso, convenhamos, não mudou nada. Hoje a gente chama de discurso de ódio, fake news, de difamação nas redes. Mas o mecanismo é exatamente o mesmo.
Agora pense no cenário. O imperador mais poderoso do mundo, cercado por histórias de traição da própria esposa. Roma inteira esperando o óbvio: vingança brutal, punições públicas, o espetáculo da fúria imperial. E o que Marco Aurélio fez? Continuou governando. Continuou escrevendo aquelas reflexões que viraram as Meditações. Continuou tratando Faustina com respeito pelo menos publicamente. Ele parecia ter entendido algo que a maioria de nós, séculos depois, ainda resiste em aceitar: a gente não controla o outro. Não controla o que dizem sobre nós. O que a gente controla e é só isso é como responde.
No Direito de Família brasileiro, esse roteiro se repete todo santo dia. A infidelidade real ou inventada aparece em uma quantidade absurda de ações de divórcio. Mas sabe o que realmente define o rumo do processo? Não é a traição em si. É a resposta de quem se sentiu traído. É isso que vai determinar se aquele divórcio vai ser um instrumento civilizado de reorganização de vidas ou um palco de destruição mútua. Eu vejo isso no meu escritório de advocacia com uma frequência que me entristece: pessoas gastando anos anos em ódios que não levam a lugar nenhum. Torrando dinheiro, energia emocional, saúde mental em litígios que não são movidos por necessidade jurídica, mas por sede de vingança. E cada hora que se gasta nessa guerra é uma hora roubada da própria reconstrução.
Existe um conceito central no estoicismo que eu acho genial na sua simplicidade: a dicotomia do controle. De um lado, o que está nas nossas mãos. Do outro, o que não está. Ponto. Você não controla se seu parceiro vai ser leal. Não controla as narrativas que terceiros espalham sobre o seu casamento. Mas você controla e como controla o que faz com isso. Vai expor intimidades nas redes sociais? Vai alimentar calúnia, difamação, injúria que, vale lembrar, são crimes contra a honra previstos no Código Penal, com consequências civis e penais bem concretas? Ou vai encarar a ruptura com firmeza, com dignidade, inclusive por respeito à honra de quem um dia você amou?
O próprio legislador brasileiro caminhou nessa direção, e acho que pouca gente percebeu a profundidade disso. Quando a EC 66/2010 simplificou o divórcio e afastou a discussão de culpa como requisito para dissolver o casamento, o recado foi bastante claro: transformar o fim de um casamento numa autópsia moral quase nunca produz justiça. O que produz, quase sempre, é mais sofrimento. O divórcio tem que ser ferramenta de recomeço não sentença de humilhação pública.
E é nesse ponto que a mediação familiar e a guarda compartilhada ganham um significado que vai além da técnica jurídica. São, na minha leitura, expressões práticas de uma postura estoica mesmo que ninguém tenha pensado assim na hora de redigir a lei. A mediação redireciona a energia: em vez de vingança, acordo. Em vez de disputa, construção de rotinas que funcionem. Já a guarda compartilhada é talvez o exercício mais difícil de todos: exige que dois ex-cônjuges, muitas vezes ainda magoados até o osso, funcionem como co-gestores da parentalidade. Não é pouca coisa. É como dizer: tudo bem, por dentro o mundo pode estar desmoronando; por fora, a postura precisa ser guiada pela razão e pela responsabilidade com os filhos. Quem já passou por isso sabe o tamanho desse esforço.
E aqui vai o ponto que eu considero mais importante de todo esse texto: a grande batalha do divórcio, hoje, não acontece só nos autos do processo. Acontece dentro de cada pessoa. O processo pode ser tecnicamente impecável, rápido, bem conduzido. Mas se a pessoa decide viver o resto da vida como “vítima eterna”, não tem sentença no mundo que traga paz. Nenhuma. É aqui que a filosofia deixa de ser conversa bonita de livro e vira instrumento prático de saúde mental, de sobrevivência emocional. Para clientes, para advogados e, sim, para juízes também.
Marco Aurélio nos deixou uma pergunta que é simples, mas incomoda: você vai deixar a dor te definir ou te libertar? No foro, traduzindo, isso significa escolher entre litigar para destruir ou litigar para reorganizar. Na vida, significa decidir se você vai repetir ad infinitum a narrativa da mágoa ou se vai, enfim, virar a página e escrever um capítulo que tenha a ver com maturidade. E a história de Faustina ou melhor, a lembrança do que fizeram com a imagem dela nos deixa um alerta final que vale ouro: não transforme o outro em vilão absoluto com base em boato. Hoje, espalhar “histórias” sobre o ex nas redes não é só fofoca. É aderir ao mesmo mecanismo de difamação que perseguiu gente ao longo de toda a história só que agora em formato digital, rastreável, e com prints que não somem.
Olha, o estoicismo sozinho não vai resolver um divórcio. Seria ingenuidade minha dizer isso. Mas pode e eu acredito nisso de verdade ajudar advogados, magistrados e jurisdicionados a atravessar esse processo com menos barulho, menos exposição desnecessária e mais lucidez. Porque a verdadeira vitória nunca esteve em destruir quem nos feriu. A verdadeira vitória é construir uma vida tão inteira, tão sua, que aquele episódio rumor ou fato se torne apenas um ponto de virada. E não o resumo da sua biografia.