OPINIÃO
Carta aos vereadores de Caldas Novas: Rua Corretora Daiane Alves Souza
Legislativo pode responder com ato público, registro permanente. Mudar o nome de uma rua não altera o passado, mas orienta o futuro
Esta carta não pede revanche. Pede memória institucional. | Foto: Reprodução
Esta é uma carta aos vereadores da Câmara de Caldas Novas. Escrevo-lhes não do plenário, mas da rua. Da rua que acorda cedo quase sem entender a violência brutal que levou a cidade das águas quentes aos jornais do mundo.
Este texto é endereçado aos 17 vereadores da cidade, dos quais três mulheres.
Estranho depois da violência. Escrevo por Daiane. Corretora de imóveis. Mulher de trabalho. Nome simples, desses que cabem numa campainha, numa chave entregue com cuidado, numa assinatura no contrato de aluguel. Nome que hoje faz falta no prédio onde morava, na rua que ainda não aprendeu a chamá-la.
Há crimes que tiram a vida.
Há crimes que tentam apagar a história.
O assassino tentou desligá-la como quem desarma um disjuntor. Como se bastasse o escuro. Como se uma mulher, uma corretora, fosse só um número fora do cadastro. Mas cidade não esquece quem ajuda a abrir portas, quem entrega chaves, quem oferece endereço, segurança e abrigo.
Corretor trabalha com sonho habitado, com alegria silenciosa, com a paz de saber onde morar, onde "estar".
Daiane era proibida de "estar".
Esta carta não pede revanche. Pede memória institucional.
Propomos a esta Casa de Leis, no uso de suas atribuições regimentais, que delibere sobre a mudança do nome da rua onde Daiane tentou sobreviver à truculência. Que o logradouro público carregue seu nome. Que o prédio registre sua história. Que o CEP, esse dado frio dos cadastros municipais, passe a dizer "Rua Daiane".
Que as caixas de correio repitam Daiane.
Que as contas de água, luz, internet e condomínio tragam Daiane.
Que cada boleto mensal afirme: ela existiu, ela trabalhou, ela deixou lastro.
Quando o nome de Daiane estiver na rua, estará em cada passo. No prédio, em cada janela. No endereço, em cada contrato, em cada locação, em cada entrega feita com cuidado. E até no logradouro daquele que confessou o crime.
Mas o Legislativo pode responder com ato público, votação em plenário, registro permanente.
Mudar o nome de uma rua não altera o passado, mas orienta o futuro. Ensina que mulheres trabalhadoras não são estatística. Que corretoras não vendem só imóveis: constroem confiança, estabilidade, pertencimento. Ensina que Caldas Novas escolhe lembrar.
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